terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Temporal deixou estragos em Esmoriz e no restante país


No passado fim-de-semana, a Cidade de Esmoriz foi assolada por uma intempérie que se fez sentir em 7 distritos do nosso país, incluindo o de Aveiro.
Contentores entornados, telhas de casas antigas quebradas e dispersadas pelo chão, placas publicitárias que se arrastavam pelo solo, entre outras situações reportadas. Por outro lado, a agitação marítima foi outra realidade.
Felizmente, os danos causados na nossa cidade foram somente materiais e parecem ter sido limitados, embora o temporal tivesse condicionado a circulação de peões e condutores.
Os casos mais graves do mau tempo registaram-se em Angeja (Albergaria-a-Velha) onde um ciclista foi levado pelas águas do Rio Vouga, e em Coimbra, onde os prejuízos ascendem aos dois milhões de euros (o Mosteiro de Santa-Clara-a-Velha foi mesmo invadido por enguias e outros peixes devido às inundações que se fizeram sentir).





sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Um país virado ao contrário...

Portugal reforçou a austeridade (nos sectores dos combustíveis e da banca) porque Bruxelas assim o exigiu de modo a evitar um défice excessivo em 2016. António Costa e o seu governo tiveram que ceder bastante para agradar à Comissão Europeia que, apesar de ter validado o orçamento, continua a primar pela arrogância, não deixando de exigir novas reformas estruturais que incluam medidas duras. Chegam a ser lamentáveis algumas declarações de altos dignitários da organização que batem sempre na mesma tecla. Mas revolta-me ouvir o sr. Wolfgang Schauble, Ministro das Finanças Alemão, a insinuar que Portugal antes estava no bom caminho e que agora poderá estar a arriscar bastante o seu futuro. Curioso que nenhum ministro português ou qualquer patriota influente se dignou a vir a público para relembrar ao sr. Schauble que o país dele já foi beneficiado com perdões e margens de manobra relativamente ao défice que Berlim apresenta. É nisto que Portugal perde. No passado, já fui europeísta, mas agora confesso que me tornei eurocéptico porque este modo-de-estar dos líderes europeus é claramente antagónico a tudo aquilo que sabemos sobre a génese e fundação da União Europeia. Não vejo solidariedade nem tratamento equitativo, mas apenas vaidade e exigências claramente centralizadas que têm de ser atendidas a bem ou a mal. E no meio disto tudo, Portugal já não é sequer um país independente, no que diz respeito à área económico-financeira!
Não me intriga apenas a ingerência exagerada de Bruxelas na nossa economia, como também me indigna profundamente a história das subvenções vitalícias, cuja reposição poderá custar 18,7 milhões de euros ao Estado Português, isto é, a todos nós contribuintes. E eu pergunto - porque é que esta gente vai ser premiada? O país está cada vez mais pobre (em termos sociais), e se tivessem o mínimo de respeito pelos inúmeros sacrifícios que o povo teve de suportar nos últimos anos, declinariam esta mordomia que não deveria sequer ter lugar em tempos de profunda crise. Entristece-me o facto de ainda ninguém se ter manifestado contra esta situação. Talvez, a reposição das 35 horas na privilegiada Função Pública seja um assunto mais importante (ironia!). 
Por outro lado, a Segurança Social que nunca teve problemas em pagar as subvenções vitalícias e diversas reformas chorudas a gente poderosa, decidiu multar o Centro Paroquial de S. Martinho das Moitas (São Pedro do Sul), isto só porque a instituição se "atreveu" a ter alimentado ou auxiliado mais pobres do que tinha sido acordado previamente. A IPSS teria de pagar 6300 euros de início, embora o Ministério do Trabalho tenha reduzido a coima para 2500 euros. Este caso vergonhoso deveria indignar profundamente os portugueses. Ajudar os mais pobres é um acto de nobreza e de altruísmo. Mas não, continuamos todos na zona de conforto com uma passividade e ingenuidade atrozes, enquanto todas estas injustiças acontecem. Noutros tempos, não duvidava que o povo se juntaria e organizaria eventos para pagar a multa desta IPSS, e viria para as ruas manifestar-se contra estes escândalos. Mas hoje somos uma sombra do passado. Reflectimos a inércia que se abateu sobre o nosso país. 
Oxalá que um dia Portugal acorde deste pesadelo!
Mas pelo que tenho visto nos últimos tempos, será preciso um milagre para isto endireitar.



 






Câmara Municipal de Ovar procede a limpezas no Rio Lambo e reabilita ruas a nascente da freguesia

As margens do Rio Lambo têm sido intervencionadas com trabalhos de limpeza, desobstrução e reparação. Esta era uma exigência que tinha sido feita nos últimos anos por vários cidadãos que moravam nas proximidades. Apesar de compreendermos a importância desta acção, quer-nos parecer que a configuração estética em torno do rio ficará, de certa forma, comprometida nos próximos meses. Toda aquela terra rasa em torno do curso de água não o beneficia em termos de imagem. Pelo que achamos que deveriam ser plantadas ordenadamente algumas árvores, como fizeram junto à rua das Britas.
Por outro lado, a requalificação urbana das ruas do Campo Grande, rua Nova, rua da Torre e rua Cavadas merece o nosso reconhecimento, visto que este projecto terá um impacto positivo ao nível da circulação viária. O investimento total deverá ultrapassar os 400 mil euros.
A Câmara Municipal de Ovar continua a aguardar por luz verde quanto à data do arranque das obras de reabilitação ambiental na Barrinha de Esmoriz. A nosso ver, esse deve ser agora o foco da equipa liderada por Salvador Malheiro que, apesar de estar a realizar na globalidade um bom trabalho, deve deixar para trás a época festiva do Carnaval e tratar finalmente de assuntos de maior importância. A Barrinha de Esmoriz e o Esmoriztur são dossiers que merecem um tratamento urgente!





Imagem nº 1 - O Rio Lambo ficará com uma nova configuração nas suas margens.
 Foto retirada do Perfil de Salvador Malheiro

Junta de Freguesia estreia Gabinete de Inserção Profissional (GIP)

Depois de ter criado o Gabinete de Apoio Psicossocial, o executivo liderado por António Bebiano decidiu instalar o Gabinete de Inserção Profissional (GIP) no edifício da Junta de Freguesia de Esmoriz. 
Com atendimento personalizado às terças e quintas feiras, o objectivo deste núcleo assenta na promoção da empregabilidade daqueles que procuram um novo desafio no mercado de trabalho. Trata-se de mais uma ferramenta que pretende combater o desemprego na região. 
Os cidadãos interessados neste serviço devem preencher um formulário de inscrição e trazer consigo o respectivo currículo. Todos os gabinetes de apoio disponibilizados pela Junta de Freguesia de Esmoriz encontram-se agora no átrio, isto é, na sala multifuncional que foi inaugurada em finais de Janeiro.





http://www.jm-madeira.pt/sites/default/files/junta_de_freguesia_de_esmoriz.jpg

Imagem nº 1 - A Junta de Freguesia de Esmoriz tem criado gabinetes que visam prestar um apoio de cariz psicológico e laboral aos seus cidadãos.
Retirada de:  http://www.jm-madeira.pt/sites/default/files/junta_de_freguesia_de_esmoriz.jpg


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Extra-Esmoriz XXVIII - Cinclus Fest transformou Vouzela na Capital da Fotografia Ambiental

Entre os dias 29 e 31 de Janeiro, realizou-se no Cine-Teatro de Vouzela (distrito de Viseu) o Cinclus Fest – VI Festival de Imagem de Natureza. A iniciativa congregou a participação de diversos fotógrafos conceituados que puderam assim apresentar fotografias magníficas sobre a fauna e a flora nacionais e internacionais. Por outro lado, os oradores partilharam com o público inúmeros ensinamentos sobre técnicas e equipamentos a adoptar no intuito de se obterem as melhores fotos de índole naturalista.
Dentro deste contexto, nunca é demais citar as presenças de Bruno D’Amicis (fotógrafo italiano que apresentou dois trabalhos muito interessantes que incidiam sobre lobos e raposas), Joel Santos (prodígio português que também difundiu imagens magistrais das tradições humanas na Mongólia e Cazaquistão, e ainda das incríveis dunas do deserto da Namíbia; também divulgou ensinamentos válidos em matéria de fotografia ambiental), Nuno Sá (com inúmeras fotografias sobre o mar; também vincou a necessidade dos fotógrafos terem ao seu dispor um equipamento multifuncional e moderno), Eduardo Barrento (experimentado artista da fotografia que se tem dedicado em particular ao estudo do falcão da região da Nazaré; venceu mesmo o prémio de Fotógrafo de Natureza do Ano), Tânia Araújo (exibiu o lado mais selvagem na região da Serra da Estrela), Luís Ferreira (retratou exemplarmente a paisagem e os costumes existentes no Hindustão/Índia), Vasco Flores (procurou sensibilizar a comunidade para uma opinião menos estereotipada ou mitificada em torno das serpentes que logrou fotografar de forma fascinante), entre outros fotógrafos de elite.
Foram ainda projectados vídeos/filmes, workshops, degustação de cogumelos, provas de produtos regionais, entre outras iniciativas que dotaram o festival de um maior brilhantismo e requinte.
À entrada do próprio cine-teatro de Vouzela (isto antes dos visitantes subirem ao segundo piso para entrarem no auditório), encontravam-se ainda equipamentos inerentes a este ofício (máquinas fotográficas modernas, lentes, livros, colecções de fotografia ambiental, estruturas móveis de camuflagem, malas apropriadas…), cifrados em quantias mais acessíveis.
Todavia, as novidades do Cinclus Fest não se concentraram somente no referido Cine-Teatro, mas também em mais dois espaços exteriores que acolheram exposições de elevada qualidade. Neste âmbito, no Museu Municipal de Vouzela, foi disponibilizada a exposição “Natureza Portuguesa” da autoria de Luís Quinta, enquanto que, na Praça Moraes Carvalho, encontrámos a exposição “Parque Natural Local Vouga-Caramulo” que pertence a João Cosme. As imagens que encontramos nesses expositores pautam-se por uma beleza ímpar que, em muito, engrandece a nossa Mãe Natureza e todas as suas criações.
O público aderiu em massa durante estes três dias de festival de fotografia ambiental, registando-se assim uma afluência na ordem das várias centenas de visitantes (ou até dos milhares!).
No encerramento, Rui Ladeira, Presidente da Câmara Municipal de Vouzela, frisou o dinamismo da organização, e agradeceu a todos os colaboradores e patrocinadores que tornaram tudo isto possível. O edil promete que, em 2017, o Cinclus Fest voltará com mais novidades e surpresas.

 
 


 
Imagem nº 1 - João Cosme apresentou uma exposição exterior sobre a beleza natural do Parque Natural Local Vouga-Caramulo.
Reportagem da nossa autoria

 

 
Imagem nº 2 - A fauna e a flora dessa deslumbrante região foram assim retratados exemplarmente.
Reportagem da nossa autoria
 
 

 
Imagem nº 3 - A Praça Moraes Carvalho albergou a exposição de João Cosme.
Reportagem da nossa autoria
 
 
 
 
Imagem nº 4 - Uma das fotos memoráveis da autoria de João Cosme sobre o Rio Couto.
Reportagem da nossa autoria
 


 
Imagem nº 5 - O Cine-Teatro de Vouzela acolheu uma panóplia vasta de oradores que integram a elite da fotografia nacional e internacional.
Reportagem da nossa autoria
 
 

 
Imagem nº 6 - No Museu Municipal de Vouzela, encontrámos a exposição "Natureza Portuguesa" da autoria de Luís Quinta.
Reportagem da nossa autoria
 
 

 
Imagem nº 7 - Duas fotografias da autoria de Luís Quinta que retratam magistralmente uma raposa e uma águia.
Reportagem da nossa autoria
 
 

 
Imagem nº 8 - As fascinantes paisagens de Portugal Continental e dos seus arquipélagos foram devidamente espelhadas nesta iniciativa.
 Reportagem da nossa autoria
 
 
 
 
Imagem nº 9 - Eduardo Barrento alcançou a distinção de Fotógrafo de Natureza do Ano com esta fotografia sobre um Falcão Peneireiro que tinha acabado de capturar um rato.
Organização Cinclus Fest
 


 
Imagem nº 10 - Palestra de Bruno D'Amicis sobre a temática "Tempo de Lobos".
Organização Cinclus Fest
 
 

 
Imagem nº 11 - O Cinclus Fest reuniu a participação de grandes nomes da fotografia nacional e internacional.
Organização Cinclus Fest
 
 

Nota-extra: Da nossa parte, foi uma honra ter assistido ao Festival. Nunca havíamos estado em Vouzela, pelo que ficamos encantados com esta terra e com o desfilar de fotografias magníficas sobre a nossa vasta Natureza. Para Esmoriz, trouxemos ainda uns saborosos “beijinhos de Vouzela”, um dos tesouros da doçaria local.

Correio do Leitor - Ana Roxo lança alerta

Quem vai a caminho da zona da Escola Secundária de Esmoriz encontra isto. Já há algum tempo que está partido e cada vez se irá partir mais com o tráfego. Qualquer dia poderá haver acidente. A quem de direito, vejam e tentem resolver a situação. Fica o aviso. Obrigada.



 
Texto e Foto enviados por Ana Roxo


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Rui Paixão em destaque no Cirque du Soleil (Jornal Público)

Rui Paixão é um jovem esmorizense que também tem dado cartas no mundo da cultura criativa. Para que o seu trabalho seja do conhecimento público, decidimos transcrever aqui um artigo da autoria de Sara Dias Oliveira no Jornal Público:



Rui Paixão: o palhaço que o Cirque du Soleil escolheu para novas criações

O ano de 2015 não podia ser melhor. Entrou no Cirque du Soleil, foi a revelação do Imaginarius, ganhou um prémio de artista emergente em Sevilha. Nos jogos que cria, todos podem errar ou acertar. Tem 20 anos, estudou teatro, e prepara uma peça sobre um homem que come todos os porcos da terra.


O dia 3 de Novembro do ano que agora terminou foi intenso. Demasiado intenso. Era dia de casting no Cirque du Soleil, em Las Vegas, Estados Unidos da América. Rui Paixão, 20 anos, de Santa Maria da Feira, estava lá. Inteiro. Intenso, também. No fim do dia, recebeu a melhor notícia: era um dos cincos palhaços e actores escolhidos entre cerca de 70 candidatos de várias partes do mundo. Disseram-lhe que era único, criativo e que a sua personagem encaixaria em novas criações.

Rui Paixão deixou a sala com o seu nome escrito na rede de artistas para novas produções do Cirque du Soleil. “Estava na lua, a navegar. Estava feliz, tranquilo. Diverti-me mesmo a fazer o casting porque não estava a contar passar, fui pela experiência”, conta.

O método prendeu-lhe tanto a atenção que só queria estar em todas as etapas da selecção. “Para mim, foi mais do que um casting, foi o meu primeiro workshop e formação em clown e, a dado momento, percebi que eles estavam a divertir-se tanto quanto eu”.

Foi na Internet que o actor soube do casting da companhia conhecida em todo o mundo. Pediam um vídeo e um currículo. Tudo enviado e duas semanas depois a resposta chegou-lhe ao email com um convite para estar em Las Vegas. Tratou do passaporte para a primeira saída fora da Europa, organizou a viagem, partiu. Uma apresentação de dois minutos era o único pedido para aquele dia, tempo curto que se esgotou logo no início. Depois, foi tudo improvisação. Improvisação da boa. Uma cadeira no palco, uma coroa invisível, uma cena para criar com início, meio e fim e em que se justifique o exercício anterior em que se foi 90% animal e 10% humano. Sempre a improvisar, sempre com a cabeça a funcionar e o corpo em acção. Exercício feito, os participantes saíam da sala e os que passavam seguiam para uma nova fase de selecção. Rui ficou com o coração cheio.

Não podia ser de outra forma. O bichinho estava lá, andava a morder. Bem que as professoras avisaram os pais que o puto tinha jeito para o teatro. “Sempre que havia idas ao teatro, era o miúdo da turma que mais delirava. Nas idas ao circo, ficava uma semana sem dormir”, recorda.

Durante oito anos, jogou basquetebol, mas ficava quase sempre no banco. De vez em quando, a dois minutos do jogo terminar, entrava em campo. “A plateia, tanto da equipa adversária, como da minha equipa, aplaudia o Rui Paixão. Eu era o palhaço do grupo, foi a forma que encontrei de me integrar, mas um dia chateei-me com aquilo e o meu pai perguntou-me por que não ia fazer teatro”. Teatro, como actividade lúdica, para fazer novos amigos, para se divertir. Não foi bem assim. O conselho foi seguido à letra. No liceu, fez um acordo com os pais. Se durante um ano provasse que conseguia fazer alguma coisa no teatro, então iria estudar para a Academia Contemporânea do Espectáculo (ACE), no Porto. Nesse ano, tudo o que vinha à rede era peixe. Começou a fazer teatro na Academia de Música e Artes de Rio Meão, na Feira. Em 2011, estava na Viagem Medieval em Terra de Santa Maria, na Feira, como acompanhante de um grupo de músicos. Animar as pessoas enquanto os músicos tocavam era a proposta.

Nesta primeira experiência, o clique aconteceu. “Na primeira vez que saio à rua para fazer uma animação, durante 40 minutos, senti-me livre, fantasticamente bem. Senti que, de facto, quando há um choque com uma coisa que não é natural, que não é do quotidiano, as pessoas dão valor”. Não havia nada a fazer e Rui Paixão vai estudar Interpretação para a ACE. Durante os três anos de formação, pensava nessa coisa de ser palhaço de rua.

“Há um paradigma que se instala na sociedade: o paradigma do sucesso. Para ter sucesso é preciso agradar o outro. Para ter sucesso, é preciso que outra pessoa o diga. Quando comecei a reflectir sobre isso, percebi que nada disso fazia sentido. O que faz sentido para tu teres sucesso é fazeres alguma coisa que, de facto, vale a pena para ti. Faz sentido para ti”, diz.

Curso terminado, a pergunta da praxe: o que fazer? Rui Paixão cria então o seu projecto Cão à Chuva. O álbum Rain Dogs de Tom Waits serviu-lhe de inspiração para o baptismo por falar de vagabundos, dos que vivem na rua. “Há uma frase, no álbum, que diz qualquer coisa como os cães saem à noite para procurar comida quando a cidade já dorme. Essa imagem é muito forte, na minha opinião. Aquela ideia de que só podes ter tudo quando já não quiseres nada. Quando uma pessoa não quer nada, já tem tudo”. E a ideia fez todo o sentido no seu teatro.


Carlos Reis juntou-se à ideia e é o seu companheiro no Cão à Chuva. É músico de vários instrumentos e cria a banda sonora original do projecto. Também estudou na ACE, no curso Luz e Som.

Rui Paixão não diz que faz espectáculos, não usa esse termo, prefere a palavra jogo. Cão à Chuva não tem guião, tem jogos montados, uma linha que define o conceito, a dramaturgia. Depois, é tudo improvisação. “É a ideia do palhaço, de não existir bem nem mal, nada está certo e nada está errado. Existem possibilidades na vida, possibilidades criativas. O objectivo daquele jogo é precisamente criar um lugar vazio onde toda a gente pode errar, pode acertar. Toda a gente pode fazer o que quiser dentro de uma lógica e, de repente, entendemo-nos todos no nada”, explica.

Desleixo cívico, social
Cão à Chuva não lhe saía da cabeça. Contactou os directores artísticos do Imaginarius - Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria da Feira para colocar em prática o que lhe explodia na cabeça. Convenceu-os e deu-se bem. Muito bem. Lullaby apresentava um “palhaço bizarro esquecido nas ruas de uma metrópole”, era um convite ao público para entrar numa performance interactiva, divertida, com humor, como um “jogo de improviso entre palhaço e espectador que buscam o riso, a cumplicidade, a emoção”.

Em Maio de 2015, estava no Imaginarius e foi considerado a revelação do festival. “Foi uma investigação honesta. Estivemos um mês em residência em Santa Maria da Feira a criar o jogo, mas, mais do que isso, a tentar perceber o que é isto do clown porque não tenho formação nenhuma”. Um mês a tentar chegar a algum lado. “Essa resposta até pode não ser muito concreta, mas, no fim, foi prova de que provoca alguma coisa nas pessoas. E isso é bom”.

Antes de entrar em cena — leia-se: as ruas de Santa Maria da Feira —, o Cão à Chuva esteve dois meses em fase de testes no Fórum de Aveiro, em Évora e Beja no Festival Internacional de Teatro do Alentejo, num outro festival em Águeda. Depois do Imaginarius, esteve no Circada - Festival de Circo de Sevilha, onde ganhou o prémio de artistas emergentes; no Xtraxt, em Londres, plataforma de divulgação de novos projectos e artistas de rua; e ainda no Fringe Festival em Edimburgo, durante duas semanas em Agosto.

Santa Maria da Feira foi o primeiro palco. Na sua terra, sente que há “um respeito enorme pela cultura”. “A cultura também agita uma cidade e Santa Maria da Feira percebeu isso. Está sempre a inovar, sempre a pensar em novas formas de fazer coisas”.

Presentemente, Rui Paixão está a preparar Pozzo, uma co-produção do Cão à Chuva e da d’Orfeu Associação Cultural de Águeda. O trabalho deverá estrear em Abril próximo. É um espectáculo de rua de média escala, com estrutura cenográfica. É uma nova fase que implica crescimento, e o palhaço que o Cirque du Soleil escolheu não gosta de ficar na base. Pozzo é, diz, uma “mega-loucura”. Um jogo mais político, a história de um homem que “tem uma panca enorme que é comer porcos, é a única coisa que consegue fazer na vida”. Até que come o último porco à face da Terra e deixa a cidade em fome. Um caso que tem de ser resolvido. Às vezes, Rui Paixão colabora com a companhia Radar 360º, do Porto, nas histórias suspensas, e em Dezembro esteve no Rivoli com a peça Funâmbulo, que nasceu de uma bolsa atribuída a artistas emergentes ganha por João Cravo Cardoso, que o convidou para mais uma aventura.

Cara branca, dois tufos de cabelo verde, roupa suja, atacadores rotos. É assim que se apresenta no Cão à Chuva. A caracterização é pensada ao pormenor. “As pessoas, por vezes, não têm a noção da investigação que está por detrás de um jogo que aparenta ser tão simples. O palhaço não é um nariz vermelho, uma caracterização, ou uma roupa. É um estado de espírito. É uma frequência, tal como a água que ferve a um determinado grau. Não existem palhaços, não existem actores, não existem bailarinos, existem seres humanos que se colocam numa frequência e existem com ela”.

Rui Paixão veste-se de palhaço velho, o palhaço que já morreu, que já não existe. “De repente, temos uma figura que contraria o estado de desleixo encontrando um estado primitivo do homem. E este estado primitivo que, por sua vez, existindo na contemporaneidade, é muito mais social do que o estado social que vivemos”.

E desleixo é a palavra que encontra para falar do estado da arte. Desleixo cívico, desleixo social, desleixo pelo outro. Desleixo. “É incrível como as pessoas perdem a curiosidade pela vida”, comenta. “Um objecto artístico, a arte, ao contrário do entretenimento, não tem a finalidade de existir para massas, tem a finalidade de existir para o artista — para o artista se fazer valer, transbordar. Os artistas têm de se concentrar em si numa fase inicial para que depois o objecto a que se estão a entregar faça sentido”, conclui.


Artigo de Sara Dias Oliveira
02-01-2016, Jornal Público





Imagem nº 1 - Rui Paixão ingressou no majestoso e lendário Cirque du Soleil.
Foto da autoria de Paulo Pimenta