sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Porque a greve dos motoristas de matérias perigosas é legítima e não pode ser abafada (Opinião)

Não gosto da forma como Pedro Pardal Henriques conduz a luta deste sindicato de matérias perigosas. Parece-me uma pessoa inflexível, intransigente e até algo birrenta na sua argumentação. Mas o mesmo poderia dizer de Mário Nogueira, Arménio Carlos e outros mais. É algo que está na pele dos sindicalistas, sendo que muitas vezes exageram na defesa das suas classes profissionais. No entanto, esse é o trabalho deles. E afirmo, desde já, que foi de muito mau tom a recente reportagem televisiva que, transmitida num canal televisivo, procurou denegrir a imagem do representante sindicalista, quando o que está aqui em causa, não é o passado de um advogado, mas sim os direitos de um sector que conta com centenas de trabalhadores. 
Neste caso em concreto, os motoristas de matérias perigosas têm razão, mesmo que não gostemos do seu representante e do enredo desta novela. O salário base de 630 euros é insuficiente. É certo que ganham outros incentivos e horas-extra, contudo o seu trabalho é exigente e obriga-os a seguir uma vida bastante rígida onde não há tempo para vícios ou prazeres susceptíveis de comprometer a máxima concentração que o seu trabalho exige. Muitas vezes não usufruem do convívio familiar que desejariam!
O mais grave é que em Abril/Maio tinha havido um acordo com a ANTRAM (patrões desta classe), tendo esta entidade voltado atrás naquilo que havia acordado. Claro que isto motivou nova revolta por parte dos camionistas, e com razão! É certo que a ANTRAM reagiu, devolvendo a acusação aos sindicatos, argumentando que foram estes que não respeitaram o acordo. Porém, esta entidade, de maior responsabilidade, deveria ter feito mais para evitar esta greve. Quando se chega a um compromisso escrito ou verbal, é para cumprir, sobretudo depois do estado caótico presenciado com a primeira greve. Se ainda restassem divergências, as conversações deveriam ter sido flexíveis ao ponto de surtir um efeito apaziguador. As cedências fazem parte de qualquer negociação.
O Governo que até então procurara alhear-se deste braço de ferro, acabou por tomar partido na questão no decurso dos últimos dias. Em nenhum momento, houve qualquer crítica à ANTRAM, pairando no ar uma tentativa de desencorajamento dos motoristas. Os ministros socialistas decidiram impor os "maiores serviços mínimos" (desculpem a contradição desta afirmação, mas é algo factual) da história recente para uma greve. 50% para o abastecimento normal, 100% para serviços prioritários (neste último ponto, entende-se). Alegam que está em causa o superior interesse dos portugueses. Mas perguntamos - e as recorrentes greves da função pública não tiveram impacto na vida dos portugueses? Porque é que não mereceram semelhantes serviços mínimos? Refiro-me às greves de médicos e enfermeiros (quantas consultas e cirurgias urgentes foram adiadas? será que houve pessoas que vieram a falecer por causa disso?), de motoristas do transporte público ou maquinistas (quantas pessoas terão faltado ao trabalho por não terem transporte?), etc...
Há evidentemente dois pesos e duas medidas. 
Pior ainda porque tivemos conhecimento de que os juízes foram aumentados recentemente em mais 700 euros, no âmbito salarial. Nada temos contra esta classe nobre e essencial para o país (e que tem, em abono da verdade, enfrentado vários entraves à realização do seu trabalho), mas o que é para uns deve ser para todos. É uma questão de justiça, coerência e equidade sociais. 
Exposto isto tudo, o direito à greve dos motoristas é legítima, e não pode ser abafada através de métodos ou estratégias que servem apenas para adiar o problema, mas que nunca o resolverão. Por outro lado, a requisição civil (que se traduzirá de forma excessiva) é uma afronta a quem deseja fazer greve. Coloca profissionais da Protecção Civil e seus sindicatos contra os motoristas e os dois sindicatos das matérias perigosas. 
O governo parece ter adoptado uma inclinação para o lado da ANTRAM. Já quase ninguém o vê sequer como um intermediário nas negociações.
Se para a semana, as coisas correrem bem, o governo terá vencido esta batalha, mas se o fiasco de Abril se repetir, já não poderá escudar-se numa suposta neutralidade porque esse distanciamento é algo que não existe neste momento.





Imagem nº 1 - Os motoristas de transporte de matérias perigosas e mercadorias entram em greve na próxima segunda-feira.
Foto da autoria de Regis Duvignau

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